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INVESTIGAÇÃO

Flávio Bolsonaro teria recebido Rolex de empresário ligado à Covaxin após passeio de lancha durante pandemia, revela piauí

Encontro com lobistas e garotas de programa teria ocorrido em Brasília, em 2020; meses depois, senador participou de reunião com empresário no BNDES. Investigação reacende questionamentos sobre relações entre interesses privados e autoridades públicas.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 21 de outubro de 2026 às 23:12 • Salvador - BA
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Montagem ilustrativa reúne Flávio Bolsonaro, a vacina Covaxin, um relógio de luxo e uma embarcação no Lago Paranoá, elementos citados na investigação publicada pela revista piauí.
Montagem ilustrativa reúne Flávio Bolsonaro, a vacina Covaxin, um relógio de luxo e uma embarcação no Lago Paranoá, elementos citados na investigação publicada pela revista piauí. — Arte ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia. A imagem não representa um registro fotográfico do encontro investigado.

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (21) pela revista piauí revela detalhes de um encontro que teria reunido o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), empresários interessados em negócios com o governo federal e três garotas de programa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, durante a pandemia de Covid-19.

A investigação, intitulada “Uma tarde no lago”, afirma que, em 17 de julho de 2020, o parlamentar participou de um churrasco organizado por pessoas ligadas à Precisa Medicamentos, empresa que buscava negociar o fornecimento da vacina indiana Covaxin ao governo Jair Bolsonaro.

Segundo o relato publicado pela revista, no encerramento do passeio, Danilo Berndt Trento, então diretor de relações institucionais da Precisa, teria presenteado Flávio Bolsonaro com um relógio Rolex retirado de seu próprio pulso.

Os jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires relatam que reconstituíram o episódio a partir de uma testemunha que estava na embarcação, entrevistas, registros de voos e documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito.

A denúncia ganha relevância por envolver um integrante do Senado, empresários interessados em contratos com a administração federal e um período em que milhares de brasileiros morriam em decorrência da Covid-19.

Um churrasco em meio à tragédia nacional

Em 16 de julho de 2020, o Brasil registrava 1.299 mortes por Covid-19 em um único dia, segundo os dados do consórcio de veículos de imprensa reproduzidos pela piauí. O país acumulava mais de 76 mil óbitos.

Naquela noite, um jato executivo partiu do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília.

De acordo com a investigação, estavam na aeronave os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, proprietário da Precisa Medicamentos, o agente de viagens Raphael Barão e três mulheres que teriam sido contratadas para participar de um encontro na capital federal.

No dia seguinte, o grupo organizou um passeio pelo Lago Paranoá. Flávio Bolsonaro teria chegado à embarcação acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio na operação de uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro.

A revista relata que Francisco Maximiano participou da viagem a Brasília, mas não integrou o grupo embarcado na lancha.

O passeio teria começado no fim da manhã e terminado por volta das 15 horas, incluindo consumo de bebidas e alimentos. Segundo a publicação, as três mulheres foram levadas de São Paulo especialmente para o encontro.

O Rolex entregue ao senador

Um dos episódios centrais da investigação seria a entrega de um relógio de luxo ao parlamentar.

Conforme a testemunha ouvida pela piauí, Danilo Trento teria retirado um Rolex com pulseira prateada do próprio braço e colocado o objeto no pulso de Flávio Bolsonaro ao final da confraternização.

A revista afirma que o senador deixou o local usando o presente.

A reportagem não apresentou avaliação independente do valor desse relógio nem comprovação pública de eventual contrapartida oferecida pelo parlamentar.

A questão central não se limita ao objeto, mas às circunstâncias em que um empresário interessado em negócios com o governo teria oferecido um benefício privado ao filho do então presidente da República.

O relato, por si só, não comprova corrupção, tráfico de influência ou favorecimento ilegal. Para estabelecer eventual responsabilidade seria necessário demonstrar os fatos, a origem do benefício e sua possível relação com atos praticados pelo agente público.

Quem eram os empresários e o que buscavam?

Francisco Maximiano e Danilo Trento tiveram seus nomes associados à tentativa de venda da vacina Covaxin ao Ministério da Saúde, intermediada pela Precisa Medicamentos.

Em 2020, a empresa procurava ampliar sua participação no fornecimento de produtos ao governo brasileiro.

Em fevereiro de 2021, o Ministério da Saúde assinou um contrato para adquirir 20 milhões de doses do imunizante desenvolvido pela Bharat Biotech, da Índia.

O valor total da negociação era de aproximadamente R$ 1,6 bilhão, correspondente a US$ 300 milhões, com preço previsto de US$ 15 por dose.

A contratação despertou questionamentos sobre procedimentos administrativos, documentos apresentados, preços e condições de pagamento.

As suspeitas chegaram à CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021.

O Tribunal de Contas da União registra que o contrato foi rescindido em 27 de agosto de 2021, sem pagamentos realizados em sua execução.

A inexistência de desembolso não elimina automaticamente a possibilidade de irregularidades nos procedimentos, mas impede afirmar que o governo efetivamente pagou R$ 1,6 bilhão à empresa.

Uma ligação documentada pelo BNDES

Um elemento importante, comprovado por documentação oficial, é a participação de Flávio Bolsonaro em uma reunião com Francisco Maximiano e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.

O encontro ocorreu por videoconferência em 13 de outubro de 2020, conforme a agenda oficial do banco.

Também participou Danilo Fiorini, executivo da Xis Internet Fibra, empresa ligada a Maximiano.

O assunto da reunião foi a busca de alternativas de financiamento para um projeto de telecomunicações, e não um contrato para aquisição de vacinas.

Em manifestação divulgada em 2021, Flávio Bolsonaro admitiu ter solicitado o encontro, argumentando que pretendia viabilizar a análise de um projeto de expansão da internet nas regiões Norte e Nordeste.

O senador negou manter qualquer relação comercial ou financeira com Maximiano.

O BNDES, por sua vez, informou à imprensa que não houve contratação de financiamento com a Xis Internet Fibra.

O registro oficial comprova a reunião e a aproximação institucional, mas não demonstra que ela tenha sido consequência do suposto passeio de lancha ou de qualquer presente.

As investigações da CPI da Pandemia

A Precisa Medicamentos foi alvo de questionamentos durante a CPI da Pandemia, que investigou a atuação do governo federal no enfrentamento à Covid-19.

Francisco Maximiano e Danilo Trento prestaram depoimentos à comissão.

Segundo a piauí, ao ser questionado sobre eventual intermediação de Flávio Bolsonaro para acesso da Precisa ao Ministério da Saúde, Maximiano negou a participação do senador.

Em outra pergunta, relacionada a uma possível aproximação com o então presidente Jair Bolsonaro, o empresário exerceu o direito constitucional ao silêncio.

A revista também relata que Danilo Trento admitiu ter encontrado Flávio Bolsonaro em eventos públicos.

O relatório final da CPI, aprovado em outubro de 2021, recomendou o indiciamento de Flávio Bolsonaro por incitação ao crime, no contexto de sua atuação durante a pandemia. Em relação ao caso Covaxin, o documento recomendou responsabilizações de Maximiano, Trento e outros envolvidos por suspeitas relacionadas à contratação.

É essencial distinguir os fatos: a recomendação contra Flávio Bolsonaro por incitação ao crime não constitui um indiciamento do senador por corrupção no caso Covaxin ou pelo encontro de lancha.

As conclusões de uma CPI também não equivalem a condenações judiciais.

Outro Rolex apareceu em investigação anterior

A denúncia publicada nesta quarta-feira apresenta semelhanças com uma investigação divulgada pelo jornalista Rodrigo Rangel, no site PlatôBR, em 29 de setembro de 2026.

Aquela reportagem abordou a relação de Flávio Bolsonaro com Alexandre Santini, encontros privados e presentes de luxo supostamente oferecidos ao parlamentar.

Entre os objetos mencionados estava um relógio Rolex Submariner Date avaliado em aproximadamente R$ 305 mil, cuja compra teria sido realizada pelo advogado Alan Belaciano em 2022.

Apesar das semelhanças, os episódios são distintos e não há elementos suficientes para afirmar que o relógio descrito pela piauí, em julho de 2020, seja o mesmo abordado pelo PlatôBR.

O que dizem os envolvidos?

Até o fechamento da investigação publicada pela piauí, Flávio Bolsonaro não havia respondido aos questionamentos encaminhados pela revista sobre o passeio de lancha.

Danilo Trento também não apresentou esclarecimentos conclusivos. Segundo a publicação, ele interrompeu a comunicação após receber informações sobre os assuntos investigados.

Os advogados de Francisco Maximiano foram procurados, mas não responderam até o fechamento da reportagem.

Em declarações anteriores, relacionadas à reunião no BNDES, Flávio Bolsonaro afirmou que conhecia Maximiano por meio de amigos em comum e negou vínculos comerciais ou financeiros com o empresário.

Não foi localizada, até a conclusão desta apuração do Hoje Bahia, uma nova manifestação específica dos envolvidos sobre o relato publicado nesta quarta-feira.

O espaço permanece aberto para esclarecimentos.

O que está comprovado e o que ainda precisa ser esclarecido?

Existem diferentes níveis de evidência nos fatos apresentados.

Está documentalmente confirmada a reunião de Flávio Bolsonaro com Francisco Maximiano e representantes do BNDES em outubro de 2020.

Também são fatos registrados oficialmente a negociação da Covaxin, a atuação da CPI da Pandemia e a posterior rescisão do contrato sem pagamento.

Já a participação no churrasco, as circunstâncias do encontro com as mulheres e a entrega do Rolex são revelações atribuídas à investigação da piauí, fundamentadas, segundo seus autores, em depoimentos e documentos.

Não há demonstração pública conclusiva de que a suposta entrega do relógio tenha resultado em favorecimento ilegal, interferência na contratação da Covaxin ou benefício financeiro ao empresário.

Por que essa história importa?

O interesse público ultrapassa a vida privada de um parlamentar.

Quando empresários interessados em contratos ou financiamentos públicos oferecem presentes, viagens ou vantagens pessoais a autoridades, surgem questionamentos legítimos sobre transparência, integridade e possíveis conflitos de interesses.

No caso revelado pela piauí, essas perguntas ganham dimensão ainda maior pelo contexto da pandemia e pelas suspeitas que posteriormente cercaram a negociação da Covaxin.

O episódio também recoloca em discussão a necessidade de conhecer como se estabelecem relações entre agentes políticos, intermediários empresariais e pessoas com acesso às estruturas decisórias do Estado.

Mais do que saber o que aconteceu naquela tarde no Lago Paranoá, a sociedade tem o direito de saber se os interesses públicos permaneceram protegidos de eventuais benefícios privados.

Essa é uma questão que exige documentos, esclarecimentos e apuração independente — sem antecipar culpa nem transformar denúncias em condenações.


Fontes consultadas: revista piauí, reportagem “Uma tarde no lago”, de João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires (21/10/2026); agenda oficial do BNDES (13/10/2020); Senado Federal, relatório final da CPI da Pandemia (2021); Tribunal de Contas da União, documentação sobre o contrato da Covaxin; PlatôBR, reportagem de Rodrigo Rangel (29/09/2026).

Hoje Bahia — Informação com responsabilidade.

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