EDITORIAL

O homem que chegou antes do resgate

Jorge Matos

Redação HOJE BAHIA
Publicada em 23 de setembro de 2026 às 09:48
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O homem que chegou antes do resgate
Foto de uma 'postagem' no Facebook

Existe uma modalidade moderna de heroísmo que dispensa a inconveniência de estar presente.

Antigamente, para ser herói era necessário correr algum risco. Hoje, basta ter internet.

Foi assim que, enquanto equipes de resgate procuravam uma aeronave desaparecida em Santa Catarina, Pablo Marçal entrou em cena pelas redes sociais. Não exatamente na mata, onde estavam os bombeiros e os profissionais que procuravam os desaparecidos, mas na tela, que é um lugar muito mais seguro.

“Estamos quase chegando em você!”, escreveu ele para Bruno Avelar, um dos ocupantes da aeronave.

Bonito.

A frase tem a vantagem de parecer uma mensagem de esperança e, ao mesmo tempo, uma chamada de campanha eleitoral, ainda que não haja campanha eleitoral nenhuma. É o tipo de frase que fica muito bem no Instagram e provavelmente ainda melhor com uma fotografia do próprio autor olhando para o horizonte.

Marçal também disse que suas equipes estavam “viradas” para encontrar os desaparecidos.

É uma informação curiosa.

Porque, numa operação de busca e salvamento, geralmente existem bombeiros, militares, pilotos, socorristas e outros profissionais que passam horas enfrentando condições difíceis para encontrar pessoas. Trabalham sem precisar anunciar a cada cinco minutos que estão trabalhando.

Talvez seja uma questão de estilo.

Uns trabalham.

Outros trabalham e avisam que estão trabalhando.

E há os que avisam tanto que a gente quase esquece de perguntar se trabalharam.

Marçal ainda recuperou uma frase atribuída a Bruno Avelar: se existe 1% de chance, deve-se gastar 99% da energia para conseguir algo.

Uma bela frase.

Mas talvez a melhor maneira de homenagear alguém que disse isso fosse gastar os 99% de energia na busca - e deixar os outros 1% para falar sobre si mesmo depois.

Porque existe uma diferença entre ajudar e aparecer ajudando.

A primeira coisa é solidariedade.

A segunda é marketing.

E existe ainda uma terceira possibilidade, mais sofisticada: fazer marketing com a aparência de solidariedade.

É quando a tragédia dos outros ganha legenda, exclamação e marcação de perfil.

Enquanto isso, uma família espera.

Um telefone não toca.

Uma mãe, um filho, uma mulher, um irmão olha para a tela e torce para que a próxima notícia seja diferente.

Nesse momento, talvez seja bom lembrar que há sofrimentos que não precisam de plateia.

A aeronave acabou sendo encontrada.

Os cinco ocupantes morreram.

E então desapareceu também a necessidade de frases heroicas, equipes “viradas” e mensagens para “segurar firme”.

Restaram os mortos.

E os vivos.

Os vivos, esses terão de conviver com a saudade - que é uma coisa que não dá curtida, não viraliza e não cabe em vídeo motivacional.

Talvez o verdadeiro teste de humanidade seja justamente esse: saber quando falar, quando agir e, sobretudo, quando calar.

Porque há tragédias diante das quais até o algoritmo deveria tirar o chapéu.

E ficar em silêncio.

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